Mestre Sérgio Santos

SwáSthya, o Yôga antigo.

 

SwáSthya Yôga é o nome da sistematização do Yôga Antigo, método que alcançou grande notabilidade, pois representa o reconhecimento de uma estirpe muito mais ancestral do que o Yôga Clássico. É a sistematização da linhagem Dakshinacharatántrika-Niríshwarasámkhya Yôga, pré-clássica, pré-ariana, pré-vêdica e proto-histórica.

O fato é que jamais alguém se deteve a estudar o Yôga primitivo do povo drávida, que floresceu em Mohenjo Daro, no Vale do Indo, a noroeste da Índia. Os atuais hindus são descendentes dos arianos que chegaram milhares de anos depois dos drávidas. A partir de então, tudo o que se referia à cultura dravidiana foi condenado à exclusão e ao esquecimento. O Yôga sobreviveu graças à sua arianização, o que equivale a dizer, graças à sua deturpação. Mediante a inversão diametral dos valores comportamentais antes vigentes no Vale do Indo, ele se adaptou deixando de ser tântrico para ajustar-se à nova ordem brahmáchárya e, assim, tornou-se aceito pelos áryas vitoriosos na grande guerra de ocupação.

 

Em que consiste?

O SwáSthya tem três características principais:

A. sua prática extremamente completa, em oito módulos;
B. a introdução do conceito das regras gerais de execução;
C. a execução das técnicas (ásanas, mudrás, bandhas etc.), formando seqüências encadeadas ou coreográficas.

A. A prática regular em oito partes denomina-se ashtánga sádhana e é constituída por:

1. mudrá (gesto reflexológico feito com as mãos);
2. pújá (retribuição ética de energia);
3. mantra (vocalização de sons e ultra-sons);
4. pránáyáma (expansão da bioenergia através de respiratórios);
5. kriyá (atividade de purificação das mucosas);
6. ásana (técnica orgânica);
7. yôganidrá (técnica de descontração);
8. samyama (concentração, meditação e samádhi)

B. Com a sistematização do SwáSthya, pela primeira vez na História aparece referência a regras gerais de execução em um livro de Yôga. São regras de respiração, de permanência, de repetição, de localização da consciência e mentalização. Consulte as regras no livro Tratado de Yôga.

C. Resgatando uma forma primitiva, perdida na noite dos tempos, é reintroduzida a execução sem repetição e com passagens que estabelecem encadeamentos, constituem movimentos de ligação entre as técnicas, permitindo melhor fluidez, numa seqüência que se convencionou chamar de coreografia.

 

Mecânica pela qual o nosso método se processa:

Os ásanas regulam o peso por estimulação da tireóide, oxigenação cerebral pelas posições invertidas, consciência corporal, coordenação motora e alongamento muscular que auxiliará os esportes.

Os kriyás promovem a higiene interna das mucosas do estômago, dos intestinos, do seio maxilar, dos brônquios, das conjuntivas etc.

Os bandhas prestam um massageamento aos plexos nervosos, glândulas endócrinas e órgãos internos.

Os pránáyámas fornecem uma cota extra de energia vital, aumentam a capacidade pulmonar, controlam as emoções, permitem o contato do consciente com o inconsciente e ajudam a conseguir o domínio da musculatura lisa.

Os mantras ajudam a obter o aquietamento das ondas mentais para conquistar uma boa concentração e meditação.

Yôganidrá é o método de descontração que auxilia a todos os anteriores e, juntamente com as demais partes da prática implode o stress. Na verdade, relaxamento é a parte menos relevante do Yôga, a menor e a menos importante. Em seu conjunto, o Yôga não relaxa: energiza!

Samyama (concentração, meditação e outros estados mais profundos) proporciona a megalucidez e o autoconhecimento.

Estes efeitos, e muitos outros são simples conseqüência das técnicas. Ocorrem como resultado natural de estarmos exercitando uma filosofia de vida saudável. Se aprendermos a respirar melhor, descontrair melhor, dormir melhor, comer melhor, excretar melhor, fazer exercícios moderados e manifestar uma sexualidade melhor, os frutos só podem ser o aumento da saúde.

 

Breve análise das oito partes:


1) mudrá
É o gesto ou selo que, reflexologicamente, ajuda o praticante a conseguir um estado de receptividade superlativa. Mesmo os que não são sensitivos podem entrar em estados alfa e théta já nesta introdução. Te-mos mais de 100 mudrás codificados no livro Tratado de Yôga.

2) pújá (manasika pújá)
É a técnica que estabelece uma perfeita sintonia do sádhaka com o arquétipo desta linhagem. Com isso, seleciona um comprimento de onda adequado a esta modalidade de Yôga, conecta seu plug no comparti-mento certo do inconsciente coletivo e liga a corrente, estabelecendo uma expressiva troca de energias entre o discípulo e o Mestre.

3) mantra (vaikharí mantra: kirtan e japa)
A vibração dos ultra-sons que acompanham o "vácuo" das vocalizações, neste caso do ády ashtánga sádhana, tem a finalidade de desesclerosar os canais para que o prána possa circular. Prána é o nome genérico da bio-energia. Somente depois dessa limpeza é que se pode fazer pránáyáma. O SwáSthya Yôga utiliza centenas de mantras: kirtan e japa; vaikharí e manasika; saguna e nirguna mantras. Utilizamos mais de 100 mantras.

4) pránáyáma (swara pránáyáma)
São exercícios respiratórios que bombeiam o prána para que circule pelas nádís e vitalize todo o organismo. E também a fim de distribuí-lo entre os milhares de cha-kras que temos espalhados por todo o corpo. Bombear aquela energia por dutos obstruídos pelos detritos decorrentes de maus hábitos alimentares, secreções internas mal eliminadas e emoções intoxicantes, pode resultar inócuo ou até prejudicial. Por isso, antes do pránáyáma, procedemos à prévia limpeza dos canais, na área energética. Utilizamos 58 exercícios respiratórios diferentes.

5) kriyá
São atividades de purificação das mucosas, que têm a finalidade de auxiliar a limpeza do organismo, agora no nível orgânico. Em se tratando de Yôga, só se deve proceder às técnicas corporais após o cuidado de limpar o corpo por meio dos kriyás. Utilizamos 6 kriyás clássicos.

6) ásana
Esta é a parte mais conhecida e característica do Yôga para o público leigo. Não é ginástica e não tem nada a ver com Educação Física. São os procedimentos orgâni-cos que produzem efeitos extraordinários em termos de boa forma, flexibilidade, musculatura, equilíbrio de peso e saúde em geral. Para aproveitar ao máximo seu potencial, os ásanas devem ser precedidos pelos kriyás, pránáyámas, etc. Aplicamos milhares de ásanas, dos quais, mais de 2.000 fotos constam do livro Tratado de Yôga. Os efeitos dos ásanas começam a se manifestar a partir do yôganidrá.

7) yôganidrá
É a descontração que auxilia o yôgin na assimilação e manifestação dos efeitos produzidos por todos os angas. A eles, soma os próprios efeitos de uma boa recuperação muscular e nervosa. Mas atenção: yôganidrá não tem nada a ver com o shavásana do Hatha Yôga. Shavásana, como o nome já diz, é apenas um ásana, uma posição, em que se relaxa, mas não é a ciência do relaxamento em si. Essa ciência se chama yôganidrá e ela não consta do currículo do Hatha Yôga. Por isso alguns instrutores de Hatha Yôga censuram o uso de música ou de indução verbal do ministrante durante o relaxamento. O yôganidrá aplica não apenas a melhor posição para relaxar, mas também a melhor inclinação em relação à gravidade, o melhor tipo de som, de iluminação, de cor, de respiração, de perfume, de indução verbal, etc.

8) samyama
Essa técnica compreende concentração, meditação e samádhi "ao mesmo tempo", isto é, praticados juntos, em seqüência, numa só sentada (etimologicamente, samyama pode significar ir junto). Se o praticante vai fazer apenas concentração, chegar à meditação ou atingir o samádhi, isso dependerá exclusivamente do seu adiantamento pessoal. Assim, também é correto denominar o oitavo anga de dhyána, que significa meditação. É uma forma menos pretensiosa.


Portanto, mesmo uma prática de SwáSthya Yôga considerada para iniciantes, como este conjunto de oito feixes de técnicas que acabamos de analisar e que constitui a fase inicial do nosso método, será bem avançada em comparação com qualquer outro tipo de Yôga, já se prevendo a possibilidade de atingir um sabíja samádhi.

 

 

O que me levou a adotar o SwáSthya Yôga?

Mestre DeRose

Ao longo de quase meio século estudei, pratiquei e freqüentei o ambiente de praticamente todos os tipos de Yôga. Viajei para a Índia durante mais de 20 anos. Contudo, era ainda bem jovem quando cheguei à conclusão de que o meu temperamento cético e exigente não se satisfaria com uma modalidade mais simplista, inautêntica ou mesmo incompleta. Eu buscava uma modalidade definitiva, global, completa, abarcante. Um método que me proporcionasse resultados fortes, rápidos e duradouros desde a área corporal até as mais profundas.

Conheci vertentes com nomes chamativos e pretensiosos, mas descobri em tempo que não faziam jus nem um pouco aos títulos pomposos que exibiam, dada a pobreza dos recursos técnicos e mesmo à tendenciosa mania de manipular a mente dos seus seguidores aqui no Ocidente. Na Índia, em geral, ainda encontra-se um bom ensinamento. Mas, curiosamente, quando um ocidental traz seus fragmentos para cá, monta-os de tal forma equivocado que o resultado torna-se irreconhecível e expressa um falso Yôga, aliás, "yóga".

Conheci ocidentais no século XX que dedicaram anos ao Yôga Integral, ao Rája Yôga, ao Mahá Yôga, ao Hatha Yôga e outros. Quando foram à Índia ficaram revoltados ao perceber que haviam sido logrados e depenados durante tanto tempo pelos seus supostos "professores", que lhes empurravam gato por lebre.

Eu não poderia adotar para mim, nem ensinar a terceiros, um Yôga incompleto, certamente falsificado ou adaptado, que mais tarde me colocasse na mesma situação desabonadora. Portanto, fiz opção por um tronco que fosse absoluto, completo, antigo, autêntico, forte, que produzisse resultados rapidamente e com segurança. Numa palavra, que fosse para mim a melhor modalidade – e essa foi o Swásthya.

Jamais quis declarar publicamente que a opção adotada por mim era a melhor, a fim de não ser deselegante para com os que se dedicassem a outras modalidades. Procurava convencer-me de que nenhum Yôga é melhor do que os demais; de que todos os ramos são bons. Finalmente, após tantos anos lecionando e em contacto permanente com a Índia, cheguei à conclusão de que não estarei sendo honesto se persistir repetindo aquela fórmula meramente gentil, mas que não é verdadeira.

Infelizmente, devido ao despreparo ou desonestidade dos que os ensinam, a maior parte das modalidades hoje existentes no Ocidente não é autêntica, não é boa e chega a ser mesmo francamente nociva.

Mas ainda não bastava que o escolhido por mim fosse um sistema autêntico. Para cativar-me por tanto tempo, era preciso que me oferecesse liberdade. Caso contrário, eu me rebelaria saturado contra uma monótona rotina imposta, à revelia ou em detrimento das minhas aspirações e criatividade. Não aceitaria nenhum tipo de doutrinação nem de manipulação.

Acontece que esta modalidade excepcional que me cativou também acenava com uma proposta de liberdade como nenhum outro. Nenhuma outra forma de Yôga me proporcionou tanta flexibilidade nos conceitos, nem tanta elasticidade na estrutura técnica, nem tanta criatividade na maneira de trabalhar com o aluno. Isso tudo me convenceu, e não só a mim como a dezenas de milhares de pessoas exigentes que elegeram o tronco Pré-Clássico como o melhor, o mais completo, o que proporciona efeitos mais rápidos e permanentes.

Para conseguir os progressos proporcionados por uma hora de SwáSthya Yôga, seria preciso praticar muitas horas de vários ramos (por exemplo: Ásana Yôga, Rája Yôga, Bhakti Yôga, Karma Yôga, Jñana Yôga, Laya Yôga, Mantra Yôga, Tantra Yôga e algumas subdivisões suas tais como Hatha Yôga, Kriyá Yôga, Kundaliní Yôga, Yôga Integral, etc.).

 

A sistematização do SwáSthya Yôga

Imagine que você ganhou como herança um armário muito antigo (no nosso caso, de cinco mil anos). De tanto admirá-lo, limpá-lo, mexer e remexer nele, acabou encontrando um painel que parecia esconder alguma coisa dentro. Depois de muito tempo, trabalho e esforço para não danificar essa preciosidade, finalmente você consegue abrir. Era uma gaveta esquecida e, por isso mesmo, lacrada pelo tempo. Lá dentro você contempla extasiado um tesouro arqueológico: ferramentas, pergaminhos, sinetes, esculturas! Uma inesti-mável contribuição cultural!

As ferramentas ainda funcionam, pois os utensílios antigos eram muito fortes, construídos com arte e feitos para durar. Os pergaminhos estão legíveis e contêm ensinamentos importantes sobre a origem e a utilização das ferramentas e dos sinetes, bem como sobre o significado histórico das esculturas. Tudo está intacto sim, mas tremendamente desarrumado, embaralhado e com a poeira dos séculos. Então, você apenas limpa cuidadosamente e arruma a gaveta. Pergaminhos aqui, ferramentas acolá, sinetes à esquerda, esculturas à direita. Depois você fecha de novo a gaveta, agora sempre disponível e arrumada.

O que foi que você tirou da gaveta? O que acrescentou? Nada. Você apenas organizou, sistematizou, codificou. Pois foi apenas isso que fizemos. O armário é o Yôga antigo, cuja herança nos foi deixada pelos Mestres ancestrais. A gaveta é um comprimento de onda peculiar no inconsciente coletivo. As ferramentas são as técnicas do Yôga. Os pergaminhos são os ensinamentos dos Mestres do passado, que nós jamais teríamos a petulância de querer alterar. Isto foi a sistematização do SwáSthya Yôga.

Por ter sido honesta e cuidadosa em não modificar, não adaptar, nem ocidentalizar coisa alguma, nossa codificação foi muito bem aceita pela maioria dos estudiosos. Hoje, esse método sistematizado no Brasil existe em todos os Continentes. Se alguém não o conhecer pelo nome de SwáSthya Yôga, conhecerá seguramente pelo nome erudito e antigo: Dakshinacharatántrika-Niríshwarasámkhya Yôga. Seu nome já denota as origens ancestrais uma vez que o Yôga mais antigo (pré-clássico, pré-ariano) era de fundamentação Tantra e Sámkhya.