Mestre Sérgio Santos

Yôganidrá

Yôganidrá é o relaxamento que auxilia o yôgin na assimilação e na manifestação dos efeitos produzidos por todos os angas. A eles, soma os próprios efeitos de uma boa descontração muscular e nervosa.

Não confunda yôganidrá com shavásana. Alguns tipos de Yôga não possuem em seu acervo a ciência da descontração denominada yôganidrá, que é de tradição tântrica, e encerram suas práticas com o shavásana. Este, como o próprio nome diz, é apenas um ásana, uma posição de relaxamento. O Yôganidrá aplica não apenas a melhor posição para relaxar, mas também a melhor respiração, a melhor inclinação em relação à gravidade, o melhor tipo de som, de iluminação, de cor, de perfume, de indução verbal, etc.

Antes de prosseguirmos, vamos precaver-nos contra um equívoco claudicante. E considerada gafe muito séria confundir Yôga com relaxamento. Na verdade, só nos últimos tempos é que o Yôga foi asssociado a conceitos de paz e tranqüilidade. Nas escrituras antigas o Yôga sempre esteve ligado a idéias de força, poder e energia. Jamais à calma ou relaxamento. Isso é coisa da sociedade de consumo. O conceito popular surgiu uma vez que tem muita gente lecionando sem ser formada. E essas pessoas conseguem trabalhar sem qualquer habilitação já que o consumidor não lhes cobra um certificado de formação profissional.

A que se deve essa distorção? A mesma que leva as pessoas a associar Karatê com alguém que dá um grito e quebra um tábua. Isso é uma caricatura. A imagem que as pessoas têm doa Yôga também é uma mera sátira que não faz juz à estatura da nossa filosofia de vida. O Yôga requer muito menos paciência que qualquer esporte ou arte. Por outro lado, a relação custo/benefício é excelente, por exemplo, na intensidade, rapidez e segurança com que atua, proporcionando flexibilidade corporal, fotalecimento muscular e vitalização de toda a estrutura biológica.

Se uma pessoa aprende a respirar melhor, administrar o estresse, concentrar-se melhor, trabalhar o corpo, alongando a musculatura, melhorando a postura, beneficiando órgãos internos, recebe um vigoroso incremento de saúde generalizada. Com a aquisição de tanta energia, os efeitos logo extrapolam o plano denso e começam a atuar no setor mais sutil como o desenvolvimento dos chakras (centros energéticos), o despertamento da kundaliní (poder a libido) e suas conseqüentes paranormalidades. Daí a meta, que é o samádhi, é um passo.

A parte mais sutil e interna só é desenvolvida se o praticante desejar. Caso contrário, ele se restringe ao trabalho orgânico que é a base de tudo. Como você pode perceber, nesse universo de técnicas e de efeitos, o relaxamento é uma parte insignificante no cômputo geral.

 

TIPOS DE RELAXAMENTO

Existem vários tipos de indução para relaxamento. Alguns deles são: relaxamento de cores; relaxamento de sons; relaxamento da praia; relaxamento da clareira no bosque; relaxamento da gota de orvalho caindo na superfície de um lago sereno; relaxamento da rosa; relaxamento da cachoeira de luz; etc.

Todos eles utilizam a mesa base inicial que consiste em um comando de descontração do corpo todo, parte por parte. A base inicial pode induzir a descontração, localizando a consciência em cada segmento do corpo, um por um, a fim de desligar todos os pontos de tensão. O comando da base inicial é quase sempre semelhante, mas pode seguir ordens distintas, variando a cada dia: descontração dos pés para a cabeça; descontração descendo pela frente, do pescoço até os pés, e subindo por trás, dos pés até a cabeça; descontração do centro para as extremidades, partindo do um bigo, sem retornar ao tronco; descontração em círculo (tronco, braço esquerdo, perna esquerda, perna direita, braço direito, cabeça); descontração em estrela (do tronco para os braços, pernas e cabeça, um por um, retornando ao tronco);

A melhor é dos pés para a cabeça, já que a morte geralmente ocorre nesse sentido – morremos primeiramente nos pés e, por último,a vida sai da cabeça (excluída a possibilidade de morte cerebral ou estado de coma).

Por isso, a posição de relaxamento denomina-se nada mais nada menos que shavásana, a posição do cadáver (shava = cadáver; ásana = posição), aludindo, entre ouras coisas, à ordem de retirada da consciência. Além disso, a cabeça só relaxa no final, para que o praticante permaneça “lúcido e consciente” durante o máximo de tempo e, se possível, por toda a descontração.

Em psicoterapia pode ser feito em ordem inversa, já que o terapeuta precisa assumir o controle do psiquismo do paciente para ajudá-lo. Então, primeiro relaxa o cérebro para suprimir o senso crítico e dominar o enfermo. Acontece que no Yôga antigo e autêntico, não trabalhamos com terapia e queremos que o praticante fique senhor da sua consciência, e cada vez mais lúcido!

Podemos utilizar recursos variados para atingir estados mais profundos e produzir efeitos específicos. Contudo, há duas coisas que devem ser evitadas: técnicas de hipnose e auto-sugestão. O Yôga não tem nada a ver com essas modalidades. Os comandos do Yôganidrá são completamente diferentes e é importante que o praticante não faça confusões. Queremos professar um Yôga legítimo e jamais um híbrido.

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