Mestre Sérgio Santos

Uma abordagem científica sobre alguns efeitos da prática da meditação.

Estudos sérios estão afastando as dúvidas que costumavam pairar sobre a prática e mostram que ela é extremamente eficaz no tratamento do stress e da insônia, pode diminuir o risco de sofrer ataque cardíaco e até melhorar a reação do organismo aos tratamentos contra o câncer.

Tiago Cordeiro
meditação

Meditação: arma poderosa contra o stress ganha respaldo científico (Thinkstock)

 

A receita para lidar com dezenas de problemas de saúde é fechar os olhos, parar de pensar em si e se concentrar exclusivamente no presente. A ciência está descobrindo que os benefícios da meditação são muitos, e vão além do simples relaxamento. "As grandes religiões orientais já sabem disso há 2.500 anos. Mas só recentemente a medicina ocidental começou a se dedicar a entender o impacto que meditar provoca em todo o organismo. E os resultados são impressionantes", afirma Judson A. Brewer, professor de psiquiatria da Universidade Yale.

Iniciada na Índia e difundida em toda a Ásia, a prática começou a se popularizar no ocidente com o guru Maharishi Mahesh Yogi, que nos anos 1960 convenceu os Beatles a atravessar o planeta para aprender a meditar. Até a década passada, não contava com respaldo médico. Nos últimos anos, os pesquisadores ocidentais começaram a entender por que, afinal, meditar funciona tão bem, e para tantos problemas de saúde diferentes. "Com a ressonância magnética e a tomografia, percebemos que a meditação muda o funcionamento de algumas áreas do cérebro, e isso influencia o equilíbrio do organismo como um todo", diz o psicólogo Michael Posner, da Universidade de Oregon.

A meditação não se resume a apenas uma técnica: são várias, diferindo na duração e no método (em silêncio, entoando mantras etc.). Essas variações, no entanto, não influenciam no resultado final, pois o efeito produzido no cérebro é parecido. Na prática, aumenta a atividade do córtex cingulado anterior (área ligada à atenção e à concentração), do córtex pré-frontal (ligado à coordenação motora) e do hipocampo (que armazena a memória). Também estimula a amígdala, que regula as emoções e, quando acionada, acelera o funcionamento do hipotálamo, responsável pela sensação de relaxamento.

Não se trata de encarar a meditação como uma panaceia universal, os estudos mostram também que ela tem aplicações bem específicas. Mas, ao contrário de outras terapias alternativas que carecem de comprovação científica, a meditação ganha cada vez mais respaldo de pesquisas realizadas por grandes instituições.

 

Redução do stress

 
Meditar é mais repousante do que dormir. Uma pessoa em estado de meditação consome seis vezes menos oxigênio do que quando está dormindo. Mas os efeitos para o cérebro vão mais longe: pessoas que meditam todos os dias há mais de dez anos têm uma diminuição na produção de adrenalina e cortisol, hormônios associados a distúrbios como ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade e stress. E experimentam um aumento na produção de endorfinas, ligadas à sensação de felicidade. A mudança na produção de hormônios foi observada por pesquisadores do Davis Center for Mind and Brain da Universidade da Califórnia. Eles analisaram o nível de adrenalina, cortisol e endorfinas antes e depois de um grupo de voluntários meditar. E comprovaram que, quanto mais profundo o estado de relaxamento, menor a produção de hormônios do stress.
 
Este efeito positivo não dura apenas enquanto a pessoa está meditando. Um estudo conduzido pelo Wake Forest Baptist Medical Center, na Carolina do Norte, colocou 15 voluntários para aprender a meditar em quatro aulas de 20 minutos cada. A atividade cerebral foi examinada antes e depois das sessões. Em todos os pesquisados, foi observada uma redução na atividade da amígdala, região do cérebro responsável por regular as emoções. E os níveis de ansiedade caíram 39%.
 
Para quem já está estressado, a meditação funciona como um remédio. Foi o que os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos descobriram ao analisar 28 enfermeiras do hospital da Universidade do Novo México, 22 delas com sintomas de stress pós-traumático. A metade que realizou duas sessões por semana de alongamento e meditação viram os níveis de cortisol baixar 67%. A outra metade continuou com os mesmos níveis.
 
Resultados parecidos foram observados entre refugiados do Congo, que tiveram que deixar suas terras para escapar da guerra. O grupo que meditou ao longo de um mês viu os sintomas de stress pós-traumático reduzir três vezes mais do que as pessoas que não meditaram – índices parecidos aos já observados entre veteranos americanos das guerras do Vietnã e do Iraque.
 
 
Harvard Gazette
Science & Health > Health & Medicine

Eight weeks to a better brain

(texto traduzido pelo Instrutor Otávio Rodrigues, da Unidade Alto da XV, de Curitiba)

Meditation study shows changes associated with awareness, stress

January 21, 2011 | Editor's Pick
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File photo by Kris Snibbe/Harvard Staff Photographer

Oito semanas para um cérebro melhor

Estudos sobre meditação apontam mudanças associadas à consciência e ao stress. (Por Sue McGreevey, MGH Communications)

Participar de um programa específico de meditação, de oito semanas de duração, parece proporcionar alterações significativas em regiões do cérebro associadas à memória, noções de auto-conhecimento, empatia e stress. Num estudo que será publicado na edição de 30 de janeiro da publicação Psychiatry Research: Neuroimaging, uma equipe conduzida por pesquisadores filiados a Harvard, no Massachussets General Hospital (MGH), relatou os resultados de seu estudo, o primeiro a documentar alterações na massa cinzenta do cérebro, produzidas, ao longo do tempo, pela meditação.

“Embora a prática da meditação esteja associada ao bem-estar e ao relaxamento físico, não é de hoje que os praticantes alegam que ela também proporciona benefícios cognitivos e psicológicos que perduram por todo o dia”, diz a autora sênior do estudo, Sara Lazar, do Programa de Pesquisa de Neuroimagens Psiquiátricas do MGH e instrutora de psicologia.

“Este estudo demonstra que alterações na estrutura do cérebro podem confirmar algumas dessas melhorias relatadas e que as pessoas não estão se sentindo melhor só por estarem passando um tempo relaxando”.

Estudos anteriores realizados pela equipe de Sara e outros pesquisadores descobriram diferenças estruturais entre os cérebros de experientes praticantes de meditação e indivíduos que não meditam, observando um engrossamento do córtex cerebral em áreas associadas à atenção e à integração emocional. Mas estas investigações não documentaram que tais diferenças foram realmente produzidas pela meditação.

Para o estudo em questão, fotos de ressonância magnética (RM) foram tiradas da estrutura cerebral de 16 participantes do estudo, duas semanas antes e depois que participaram do Programa de Redução do Stress Baseado na Potencialização da Consciência (PRS). Além de encontros semanais que incluíram prática de meditação (que foca na consciência sem julgamento de sensações, sentimentos e estados de consciência – os participantes receberam gravações em áudio para a prática induzida de meditação e foi-lhes solicitado que controlassem quanto tempo praticavam cada dia. Um conjunto de fotos de RM foi também tirado de um grupo-controle de não-meditantes ao longo de um período de tempo semelhante.

Os participantes do grupo de meditação relataram que praticavam por uma média de 27 minutos cada dia e suas respostas ao questionário indicaram melhorias significativas em relação às respostas dadas antes do programa. A análise das imagens de RM, que focou em regiões onde as diferenças associadas à meditação foram registradas em estudos anteriores, mostrou um aumento da densidade da massa cinzenta no hipocampo, região responsável pelo aprendizado e pela memória, e em estruturas associadas com a auto-consciência, a compaixão e a introspecção.

As reduções no stress relatadas pelos participantes estavam também correlacionadas com a diminuição da densidade da massa cinzenta na amígdala, que é conhecida por exercer uma função importante no que diz respeito à ansiedade e ao stress. Embora nenhuma alteração tenha sido notada na insula, estrutura associada à auto-consciência, que fora identificada em estudos anteriores, os autores supõem que a prática de meditação por um período maior possa ser necessária para produzir alterações nessa região. Nenhuma dessas alterações foi notada no grupo-controle, indicando que elas não resultaram apenas da passagem do tempo.

Segundo Britta Hölzel, primeira autora do estudo e pesquisadora no MGH e na Giessen University, na Alemanha, é fascinante observar a plasticidade do cérebro e que, ao praticar a meditação, podemos desempenhar um papel voluntário na alteração do cérebro, o que pode aumentar nosso bem-estar e nossa qualidade de vida. Ainda segundo ela, outros estudos em diferentes grupos de pacientes mostraram que a meditação pode proporcionar melhorias significativas em uma variedade de sintomas e, no momento, investiga-se os mecanismos subjacentes no cérebro que facilitam essa alteração.

Segundo Amishi Jha, um neurocientista da Universidade de Miami que investiga os efeitos da meditação em pessoas com alto nível de stress, esses resultados apontam os mecanismos de ação do treinamento de meditação. Eles demonstram que o nível de stress não só podem ser reduzidos com um programa de oito semanas de meditação, mas que a alteração vivencial está relacionada com as alterações estruturais na amígdala, uma descoberta que abre portas para diversas possibilidades de outras pesquisas sobre o potencial do programa de redução do stress como forma de proteção contra doenças relacionadas ao stress, como o distúrbio de stress pós-traumático. Jha não foi um dos investigadores do estudo.

James Carmody, do Center of Mindfulness, na Escola de Medicina da Universidade de Massachussets, é um dos co-autores do estudo, que foi apoiado pelas instituições National Institutes of Health, British Broadcasting Company e Mind and Life Institute.