Mestre Sérgio Santos

Pújá

 

pujá rosa

Pújá, do sânscrito, traduz-se como oferenda, honra, adoração, respeito, reverência, veneração ou homenagem. Acredita-se que o termo seja derivado de pu-chey (oferenda de flores), proveniente do dravídico, uma das línguas que deram origem ao sânscrito. Este, por sua vez, influenciou etimologicamente diversos idiomas modernos, provavelmente, até o português.

O verbo pujar, por exemplo, significa superar, suplantar; o adjetivo pujante: possante, potente, fecundo; o substantivo pujança: força, vigor, energia, grandeza. Isso pode ser apenas coincidência, mas o fato é que em nossa língua todos esses significados têm muita semelhança com a acepção do termo em sânscrito, denotando o seu grau de importância.

Uma prática universal

O pújá em si é algo espontâneo, um comportamento inato e instintivo de gratidão, reverência e lealdade. Encontra-se presente no âmago de cada ser humano e remonta a tempos imemoriais de todos os lugares do planeta.

Tal gratidão é uma atitude universal, observada no cotidiano sob as mais variadas manifestações culturais, sejam filosóficas, artísticas, cívicas, políticas, religiosas ou científicas.

Para exemplificar, classificamos como pújá: uma criança oferecendo espontaneamente uma maçã à sua professora antes da aula; um estudante homenageando os pais ao concluir a faculdade; um soldado honrando o seu País ao hastear a bandeira; um discípulo reverenciando e defendendo o seu Mestre e a sua linhagem, entre outros. Para ser designado como pújá, é preciso haver um sentido hierarquicamente ascendente: parte do aluno ao professor, do filho aos pais, do devoto à divindade, do discípulo ao Mestre.

O pújá acha-se bem desenvolvido e estruturado no Oriente, especialmente na Índia. De fato, tal conceito é muito popular naquele país. Além de ser aplicado habitualmente no cotidiano hindu, esse costume também está inserido numa filosofia denominada Yôga, um dos seis pontos de vista (darshanas) do hinduísmo. A intenção deste trabalho é fundamentar o pújá por meio daquela filosofia.

 

Uma parte imprescindível do Yôga

O melhor significado do termo sânscrito Yôga é integração consigo mesmo, com os outros seres e com o Universo. A definição mais abrangente é: “Yôga é qualquer metodologia estritamente prática que conduza ao samádhi.”

O Yôga nasceu na Índia, há mais de 5.000 anos. Originalmente, é composto por vários conjuntos de técnicas integrados numa metodologia prática, podendo ser comparado a um colar de pérolas. O pújá representa uma dessas pérolas e, a filosofia do Yôga, o fio que as une, formando o colar.

Hoje em dia, as mais variadas linhas de Yôga são praticadas por pessoas no mundo todo. No entanto, a grande maioria dos ocidentais desconhece o pújá, diferentemente do hindu que sempre o utiliza. Dissociá-lo do Yôga é comprometer a autenticidade dessa filosofia prática e conseqüentemente a evolução do praticante.  

 

O conceito de pújá possui primeiramente duas divisões: báhya pújá (externo, expresso com oferendas materiais) e manasika pújá (interno, manifestado por meio de mentalização e atitude interior).

 

Para realizar o báhya púja, cinco objetos materiais, tradicionalmente, são mais recomendáveis: frutas, flores, tecidos, incenso e dinheiro. Não obstante essas cinco formas de pújá, atualmente é comum o indiano médio oferecer a um Mestre simplesmente uma caixa de doces! No Ocidente, um tipo de oferenda que todo instruotr aprecia são músicas que possa utilizar em coreografias, meditação, relaxamento e aulas em geral. Na verdade, não importa o que você esteja ofertando. Importa é o sentimento, a intenção e a intensidade com os quais o pújá esteja sendo feito.

 

Na prática regular de Yôga, aplica-se mais o manasika pújá, reservando-se o báhya pújá para circunstâncias cerimoniais, sociais e festivas. O manasika pújá faz-se com profunda concentração e visualizando linhas, raios ou jatos de luz partindo do coração do praticante ou discípulo (dependendo do grau de identificação) em direção ao Mestre, envolvendo-o e impregnando-o com a energia de carinho, amor, lealdade e apoio daquele que transmite o pújá. A visualização terá muito mais validade se for potencializada por um sentimento verdadeiro, honesto e intenso. Essa luz pode ser visualizada com coloração amarelo-ouro, diáfana e brilhante, como o são em geral os fachos de luz, ou pode tomar as características cromáticas daquilo que se deseja melhor transmitir: se for saúde física e vitalidade, luz alaranjada; se for saúde generalizada com redução do stress, verde claro;se for paz e serenidade, luz azul celeste; se for afeto, rosa; se for para auxiliar uma superação kármica, violeta.

 

Pode-se fazer pújá a um local sacralizado, a um pessoa consagrada, ou a uma egrégora, isto é, a uma entidade gregária, o ser arquetípico que polariza e nucleia um grupo de indivíduos. Quando entre pessoas, o pújá faz-se somente em sentido ascendente, ou seja, do inferior ao superior hierárquico. Asssim,um devoto pode fazer pújá à sua divindade, um filho pode fazer pújá ao seu pai ou mãe, e o discípulo ao Mestre, mas não o contrário.

 

Como em todas as coisas do Hinduísmo, com relação ao pújá encontram-se também opiniões as mais variadas e discrepantes. Em algumas regiões e em determinadas escolas, o pújá muda de nome ou, então, entende-se que ele não possa ser direcionado a outro Ser Humano, mas apenas ao ser Divino. Outras contra-argumentam que o Ser Divino está dentro de todo Ser Humano, portanto, o pújá pode ser feito ao Mestre. Se formos ater-nos à teorização e à filosofia especulativa, isso se tornará uma discussão sem fim.

 

O importante é o praticante saber que o pújá é parte da etiqueta e das boas maneiras yôgis. Seja qual for sua origem, casta, credo ou posição social, antes de qualquer coisa deve ter lugar um pújá. O pújá é como se fosse o agradecimento prévio pelo que ainda vai ser feito. E um “muito obrigado” dito pelo aluno antes da aula, assim que chega para a classe. E a maçã que a criança leva espontaneamente para a sua professora primária.