Mestre Sérgio Santos

 

O que significa Namastê?

 

 

 

Depende se você mora na Índia ou nos E.U.A.

 

JULY 26, 2015 7:03 AM ET

DEEPAK SINGH

Namastê

 

 

Se você fizer uma aula de yoga nos E.U.A., o professor certamente dirá a palavra namastê ao final da prática. É uma frase em sânscrito que significa “Eu me curvo a você.” Você coloca as mãos juntas à altura do coração, fecha os olhos e se curva.

 

Este não é o namastê que conheço.

 

Meus pais nos ensinaram a dizer namastê quando éramos crianças na Índia. Disseram à minha irmã mais nova, ao meu irmão e a mim que era parte das boas maneiras dizer namastê para os mais velhos. Era o equivalente a um oi, mas com um quê de respeito. Se não disséssemos namastê, não seríamos considerados boas crianças.

 

E havia um bocado de namastês para serem ditos. Na Índia, é comum referir-se aos vizinhos da idades dos nossos pais como tios e tias. A vizinhança toda era repleta de tios e tias. Milhares deles. Vivendo às voltas de tanta gente digna de um namastê, lembro-me de não parar de dizer essa palavra. Namastê! Namastê! Namastê!

 

Meu irmão, o mais novo e mais travesso de nós, movia seus lábios fingindo dizer namastê, mas, na verdade, dizia um palavrão, amaldiçoando a mãe da pessoa. Ele achava legal poder dizer um palavrão a pessoas como aquelas e se safar. O namastê encobria sua verdadeira intenção.

 

Minha irmã também fazia das dela. Quando se cansava das visitas, dizia-lhes namastê, sugerindo que fossem embora. Havia um “tio” em especial que nos visitava com frequência e ficava por várias horas. Solicitava xícaras de chá e bancava o chefe conosco – pegue isso, pegue aquilo, faça isso, faça aquilo. Quando minha irmã não aguentava mais, ela recorria à respeitosa saudação – namastê – como uma mensagem para o tão odiado tio: É hora de ir para casa!

 

Toda vez que ele se levantava para ir ao banheiro, ela dizia prontamente “Namastê, tio!” Aquele tio sabia do joguinho dela, mas não entrava na dela. Ele respondia num tom irritado “Não estou indo ainda, OK, sua má educada.”

 

Nós todos ríamos da reação dele. Minha mãe franzia a testa para nós, pelo nosso mau comportamento. Ela tampouco gostava daquele homem, mas não queria que fôssemos rude com ele.

 

Eu também desenvolvi minha própria relação com o namastê. Meu pai esperava que nós, especialmente eu, como o filho mais velho, tocássemos os pés de nossos parentes. Você se curva, toca os pés com ambas as mãos e, então, toca sua própria testa. Na cultura hindu, tocar os pés das pessoas é considerado o mais alto grau de respeito que se pode dar aos mais velhos. É reservado para os avós, pais, professors e uns poucos parentes – que eram tidos como divindades.

 

Às vezes, eu não estava afim de tocar-lhes os pés. Aí, eu tentava escapar com um namastê. Quando meu pai me pegava fazendo isso, ele dizia “Não, não, não. Você tem que lhe tocar os pés.” Relutantemente, eu me curvava e envolvia os joelhos das pessoas, que, para o meu pai, não era tão satisfatório quanto os pés. Ele queria que eu lhes tocasse os pés, não os joelhos.

 

Mas, às vezes, eu me livrava apenas com um namastê. Fazia com que eu me sentisse bem. Eu podia dizer de onde estivesse, sem ter nenhum contato com os pés.

 

Ao longo dos últimos anos, o namastê tem se reinventado. E os E.U.A. têm muito crédito (ou culpa) por isso. Após me mudar para os E.U.A., fui a uma aula de yôga e ouvi a professora dizer namastê. Ela juntou as mãos à sua frente, apontando os cotovelos para fora. O namastê dela soava diferente do que eu conhecia. Eu digo “num-us-teh”, ao passo que, na versão estadunidense é dito “nahm-ash-tay”.

 

Ao final da aula, comecei a prestar atenção ao que os estadunidenses querem dizer com namastê. Tenho a impressão de que eles não o consideram apenas um cumprimento, mas algo com uma conotação spiritual – um mantra hindu, um canto divino, uma saudação yogue. Usar o namastê na Índia nunca fez com que me sentisse espiritual de alguma forma. Mesmo nas aulas de yôga que fiz naquele país, os professores nunca proferiram um namastê.

 

Mas eu tive uma experiência esquisita com o namastê na Índia. Há alguns anos, estava visitando Pushkar, uma cidade hindu sagrada no estado ocidental de Rajasthan. A cidade é um dos principais destinos para turistas estrangeiros que buscam o despertar espiritual. Ao chegar lá, vi habitantes da cidade, informantes e vendedores ambulantes numa área de concentração de mochileiros, em suas varandas e na porta da frente de suas casas, dizendo namastê a cada turista que passava e executando o tal gesto característico. O sorriso, tom de voz e estilo do dizer eram exatamente iguais aos da professora na minha aula de yôga nos Estados Unidos.

 

Moro nos E.U.A. agora e, quando ouço alguém se dirigir a mim com um namastê num hortifruti orgânico, ou num retiro de yôga, acho engraçado e divertido. Isso sempre estampa um sorriso em minha face. Sempre tenho a impressão de que, para eles, essa palavra tem um significado bem diferente do que tem para mim.

 

Deepak Singh

Texto traduzido pelo Instrutor de Yôga, Otávio Rodrigues.

-----

 

Deepak Singh is a writer living in Ann Arbor, Mich. He tweets as @deepakwriter.

 

Fonte:

http://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2015/07/26/425968146/whats-in-a-namaste-depends-if-you-live-in-india-or-the-u-s utm_campaign=storyshare&utm_source=facebook.com&utm_medium=social