Mestre Sérgio Santos

Mudrá

Gesto reflexológico feito com as mãos

 

Shiva mudra

 

Mudrá é a linguagem gestual. Deve ser pronunciado sempre com a tônico. Significa literalmente gesto, selo ou senha. Provém da raiz mud, alegrar-se, gostar. Em alguns livros aparece traduzido como símbolo, mas isso não está correto. Símbolo é a tradução da palavra yantra. Em Yôga, mudrá designa os gestos feitos com as mãos. São definidos como gestos reflexológicos por desencadear uma sucessão de estados de consciência e mesmo de estados fisiológicos associados aos primeiros.

Um tipo de Yôga moderno, o Hatha, surgido no século XI d.C., admite gestos feitos com o corpo (yôga mudrá, mahá mudrá, vajrôli mudrá, viparítakaraní mudrá), mas essa interpretação parece não concordar com as correntes mais antigas. Aliás, se perguntarmos a um instrutor de Hatha qual é a diferença entre um ásana (técnica corporal) e um mudrá feito com o corpo, a explicação não vai convencer. A justificativa menos confusa, mas nem por isso correta, é a de que os mudrás compreendem mentalização! Ora, esta técnica só é considerada completa e perfeita se incluir mentalização. Portanto, ficamos sem poder classificar o que os yôgins daquele ramo moderno denominam “mudrá feito com o corpo”.

Mudrá tem sua origem na ancestral tradição tântrica. Como afirma Shivánanda, a presença de mudrá, pújá e mantra, caracteriza herança dos Tantras. Devemos recordar que o Swásthya Yôga tem sua prática básica iniciando-se exatamente com esses três angas. E não é à toa: o nome completo da nossa linhagem é Dakshinacharatántrika-Niríshwarasámkhya Yôga.

COMO ATUAM OS MUDRÁS 

Os mudrás atuam por associação neurológica e por condicionamento reflexológico. Não podemos negar um componente cultural, que reforça ou atenua o efeito dos mudrás. Sua influência na esfera hormonal é inegável. Quem ainda não sentiu lhe subir a adrenalina por causa de um mudrá provocativo, ou os hormônios sexuais por conseqüência de um gesto erógeno?

Um fato curioso e que só pode ser atribuído ao inconsciente coletivo é a “coincidência” de que, em épocas diferentes, hemisférios diferentes, etnias e culturas diferentes, os mesmos gestos sejam observados, com o mesmo significado. Há diversos estudos publicados nas áreas de antropologia e de psicologia demonstrando que, seja qual for o povo, determinados gestos possuem um significado comum, desde uma primitiva tribo africana, até uma nação nórdica.

Mas, afinal, o que há de extraordinário nisso? Todos os povos não expressam sua satisfação e cordialidade através do sorriso e sua revolta através do punho cerrado? De quantos outros exemplos lembrou-se o leitor neste justo momento?

Portanto, mudrá é a parte do Yôga que estuda e aplica os efeitos dos gestos sobre o psiquismo e, por conseqüência, sobre o corpo físico.

A IMPORTÂNCIA DOS MUDRÁS

O Homem só se distanciou do resto dos animais, dominou a Natureza, adquiriu tecnologia, criou a arte, constituiu a civilização porque tinha mãos. E, nelas, um polegar oponente. Não foi graças ao cérebro. Bem pelo contrário: o cérebro só se desenvolveu depois que as mãos passaram a segurar e até a fabricar instrumentos, meio que instintivamente, como inclusive o fazem alguns símios e várias outras espécies de animais. A partir de então, os estímulos neurológicos, cada vez mais complexos, passaram a exigir um maior desenvolvimento cerebral. Implante-se um cérebro humano em um cavalo e ele não poderá construir coisa alguma com seus cascos.

As mãos e os dedos são, além de ferramentas da edificação cultural, meios eficazes de comunicação entre os indivíduos. Um homem público pode estar proferindo um discurso muito convincente no aspecto da verbalização, mas a gesticulação poderá traí-lo e o público não o aceitará se seus mudrás não forem coerentes. Quantos políticos você conhece que perderam eleições por causa de uma gesticulação denunciadora das suas verdadeiras intenções...

Além do mais, o corpo humano, como qualquer porção de matéria orgânica, possui um magnetismo e polaridades. Energia flui em quantidades e qualidades distintas por todo o organismo. Logo, não é de se admirar que em suas extremidades – as mãos – modificando-se a disposição, a postura, a orientação e a combinação dos dedos, diferentes reações eletromagnéticas se manifestem. Desde que as fotos kirlian tornaram-se populares, é impossível negar que das mãos e dedos partam fachos de energia fotografável. E mais, faça você mesmo essa experiência: bata uma kirliangrafia antes e outra depois de praticar respiratórios, ásanas, mantras, meditação, etc. As variações são, no mínimo, interessantes.

QUANTOS SÃO OS MUDRÁS

O número total de mudrás é incerto, uma vez que, dependendo da região, da época e da Escola, os mudrás têm nomes diferentes e até mesmo dois ou três nomes para o mesmo mudrá, dependendo apenas da maneira como ele é executado. Podemos, contudo, compilar mais de 100, dos quais mencionaremos primeiramente os principais para o nosso tronco de Yôga.

Os mudrás do hinduísmo são originários da antiga tradição tântrica e tanto o Yôga quanto a dança clássica hindu, o Bhárata Natya, utilizam-se deles. Nos Yôgas mais tardios essa arte ficou praticamente extinta, limitando-se a uns poucos mudrás. O praticante de Swásthya Yôga deve cultivá-los com sensibilidade e dedicação, cravejando-os na sua prática diária e, com muito mais empenho, no seu treinamento de coreografia.

Os mudrás são divididos em duas categorias: samyukta hasta (com as duas mãos) e asamyukta hasta (com uma só mão).

QUAIS SÃO OS MUDRÁS

Os mais conhecidos são:  

Shiva mudrá, para meditação (dorso da mão positiva pousa sobre a palma da mão negativa).

Neste mudrá devemos sentir nossas mãos como um cálice no qual recebemos a preciosa herança milenar de força e sabedoria. Amplifica nossa receptividade.

ána mudrá, para meditação e respiratório (dedos indicador e polegar de cada mão tocam-se).

Este gesto conecta os pólos positivo e negativo represen-tados pelos dedos indicador e polegar de cada mão, passando por eles uma corrente de baixa amperagem e apoiados sobre os chakras dos joelhos, que são secundários.

Átmam mudrá, para respiratório e mantra (as mãos formam um vórtice diante do swádhisthána chakra);

Este selo tem um efeito semelhante ao anterior, só que agora com os dez dedos envolvidos, formando o circuito de alta amperagem, e localizado diante de um chakra principal. Cria um empuxo que ascensiona a energia sexual coluna acima.

Prônam mudrá, para mantra e ásana (palmas das mãos unidas à frente do peito).

Nesta senha, a mão de polaridade positiva se espalma na de polaridade negativa, fechando um importante circuito eletromagnético que faz circular a energia dentro do próprio corpo e recarregá-lo, especialmente se executado durante ou após os mantras. Nos ásanas, tende a proporcionar mais senso de equilíbrio e por isso mesmo é mais utilizado nos ásanas de apoio num só pé.

Trimurti mudrá, para ásana (os dedos indicadores e polegares formando um triângulo).

Este mudrá é simbólico e representa a trimurti hindu, Brahmá, Vishnu e Shiva. Por ter poucos efeitos, é mais utilizado como suporte em movimentação de braços durante a execução de ásanas.

As aplicações acima citadas (meditação, mantra, etc.) são apenas as mais comuns. Há diversas outras finalidades e efeitos relacionados com esses gestos.

Fora os mais utilizados, há alguns muito importantes, mas menos conhecidos, que são:

yônílinga mudrá;

mushti mudrá;

padma mudrá;

vaikhara mudrá;

kálí mudrá.

A seguir veja a lista com os mudrás hindus, pelos nomes mais conhecidos. Algumas vezes poderemos encontrar nomes diferentes para designar o mesmo mudrá. Geralmente isso se deve à utilização de outro idioma ou dialeto, já que na Índia falam-se nada menos que 18 línguas oficiais, cada qual com um alfabeto diferente, mais algumas centenas de línguas não oficiais, todas com escrita e gramática, e ainda alguns milhares de dialetos. Alguma confusão de nomenclatura é, então, inevitável.

Outras vezes é o mesmo nome que serve para designar dois mudrás diferentes, como é o caso do trishúla mudrá, do swástika mudrá e outros.

Muito importante é não misturar mudrás hindus com outros de tradição discrepante, deslize tão comum entre autores ocidentais. Para nós, “oriental é tudo igual”. Então, achamos perfeitamente justificável, e supomos até mesmo que seja uma demonstração de cultura geral, embaralhar artes, ciências ou filosofias da Índia, China, Ja-pão, Tibet, Nepal, ou de hinduísmo, budismo, taoísmo, como se fosse tudo a mesma coisa. Fuja do suposto Mestre que faça miscelânea. Ao lidar com esses assuntos, é preciso um pouco mais de seriedade para não informar mal o leitor.

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Mudrá